Meu nome é Pedro Rodrigues. Sou tímido, discreto e tão recatado que chegam a me comparar a um anjo, já que, durante alguns anos, me escondi sob a proteção do estigma do evangélico assexuado. Só quem me conhece bem intimamente sabe que, na verdade, eu não passo de um cara safado, pornográfico e ninfomaníaco. Que anjo que nada! Sou um legítimo sátiro, aquela entidade mitológica alegre e maliciosa que figurava nos bacanais de Dionísio, juntamente com as ninfas. Em português bem claro, um devasso em máscara de santo. Vim do interior de Minas, vivi minha infância na década de 80 e fui aprendendo o que é sexo sem a ajuda da internet ou da Malhação. Descobri que gostava de homem ainda pequeno, meio que graças aos “abusos” de colegas mais velhos e mais safos que eu. Digo abusos entre aspas porque eu não me sinto uma vítima de pedofilia, já que eu sentia prazer naquilo e pedia para ser encoxado. Só que, ainda assim, eu sempre me apaixonei por meninas. Apaixonava mesmo, de sofrer, de chorar, de querer me matar por amor. Com dezoito anos, depois de ficar craque no sexo oral, dei o cu pela primeira vez. Dois meses depois, tive minha primeira namorada, uma moça linda, talentosa e inteligente que foi meu primeiro amor, desses que a gente carrega pelo resto da vida. Foram dois meses de um namoro baseado em romantismo e nada de sexo. Por causa dela, fui parar na igreja. O namoro não durou, mas eu me tornei evangélico. Durante três anos – incluindo boa parte do meu período acadêmico -, me mantive casto e envolvido em namoros cristãos. Era considerado um anjo por todos aqueles que me rodeavam. Sonhava em casar, ter filhos… Mas o desejo carnal mantinha-se forte, embora oculto. Dentro de mim, o sátiro adormecia. Confesso que não foi fácil assumir para mim mesmo que sou homossexual. Para que eu entendesse que não nasci para me casar com uma mulher e ser fiel a ela, precisei me apaixonar profundamente por um homem. Entretanto, mesmo vivendo com o homem da minha vida, não deixei de querer outros homens. Foi uma paixão avassaladora no início, que terminou repleta de mágoas e traições. Não tenho a menor dúvida de que nos amamos muito, mas a relação se desgastou demais e torna-se impossível a sua continuidade. Eu assumo a minha culpa: apesar do meu amor, nunca fui fiel. Sempre tirei bom proveito de todas as oportunidades que me surgiram. Moro em uma cidade propícia para o pleno exercício da luxúria. Parques, saunas, boates, banheiros públicos e até banco de trás de ônibus coletivo é local para o ínício de uma bela sacanagem… Realmente, é preciso ser muito forte para resistir às tentações. E, como a minha carne é bem fraca, me rendi a todas às investidas do pecado. Porra, como eu gosto de homem!! Altos, baixos, magros, fortes, louros, morenos, mulatos, ricos, pobres, dotados e até os menos privilegiados. Todos me agradam. Sou mesmo bem eclético. Confesso que tenho pouquíssimas restrições, como, por exemplo, coroas. Não tenho tesão algum em cabelo branco e pele enrugada. A menos que seja um Victor Fasano ou Richard Gere, evito experimentar carne que já tenha passado dos quarenta anos. Acho deprimente essa coisa de velhos que vão para a pegação atrás de garotões e entendo menos ainda o que leva um cara jovem – como meu parceiro Marcelo Medina – a pegar um coroa. Dizem que é alguma coisa ligada à ausência paterna, mas eu discordo, já que também não tive pai e nem por isso busco homens com cara de paizão. Aliás, figura de pai que me excita é Brad Pitt, mas ele nem conta, parece ter 30 anos… Hoje, com quase trinta anos, considero-me um anjo sátiro. Não namoro mulheres há alguns anos e, quanto a ter filhos, pode ser que aconteça daqui a alguns anos, desde que eu não precise me casar. Acabo de sair de um relacionamento de cinco anos com outro homem e tenho vivido neste último ano grandes aventuras sexuais que me proponho agora a tornar público – embora não tenha a menor pretensão de sair do armário. Você não saberá quem eu sou. Apenas que sou metido a escritor, relativamente bonito e muito, mas muito safado.